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-sa quem você pensa quem você pensa quem você pensa

outubro 14, 2013

Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você?

Quem é você pra falar isso?
Quem é você pra falar assim?
Quem é você pra me dirigir a palavra?
Quem é você pra abrir a boca?
Quem é você pra sentar aqui?

Quem é você pra não se mexer?
Quem é você pra fazer esse gesto?
Quem é você pra ficar aí paradx?
Quem é você pra me olhar desse jeito?

Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você?

Quem você pensa que é?

*vômito*

“Quem é você?”.

R: FODA-SE.
Sou umx impostorx. Uma mentira. Falcatrua. Puro migué. Charlatonice. Infiltradx onde não era pra estar. Só pra incomodar. Agindo pela por conveniência. Sem coerência.

Sou o trabalho feito de última hora, enfeitado numa linda embalagem, vendido com um fabuloso discurso. E não me responsabilizo se você comprar.

Não tem moral da história. Não tem face por detrás da máscara. Não existe coerência de fundo explicando porque faço o que eu faço.

Você me leva a sério? Fica por sua conta e risco. Eu nunca pedi por isso.
Se meus gestos ou minhas palavras eram convenientes pra você, não venha reclamar agora que não são.

Eu não sou um produto. Eu não tenho função. Eu não tenho verdade.
Então páre
simplesmente
páre
de me colocar nessa pergunta:
“Quem é você?”

desonestidade

outubro 14, 2013

impostore
incoerente
traidore

sem honestidade
sem inocência
mistura suja

apenas vento
por trás das 77 máscaras
apenas vento

nada a descobrir

a não ser:
traição
impostura
incoerência

filhote bastardx do tempo.

esboço de um delírio roto

outubro 9, 2013

Corpo jogado, transitando entre a descartabilidade e o recicle.

Teoria que hesita entre redes de privilégio, devires minoritários, opressões – catracas pelas quais transito, catracas que me impedem de transitar, catracas  entre as quais edificam-se linhas de desejo que chamo de “minhas”.

Nesta voz que é sempre uma mescla da multidão de outrxs. Multidão de corpos – marcados como femininos, sapatões, vampiros, viadinhos, bruxas, travas, vagabundos, fadas, contagiando a figura do rosto “respeitável” que se delineia todos os dias frente a espelhos.

A normalidade é insuportável, torpor anestésico que delineia os contornos do “humano” que herda o mundo como propriedade, endividando e cobrando compulsoriamente. Normas que se descartam, normas que se reciclam.

Normas que ejaculamos – gozar fora? Gozar dentro? Cumshot. Líquidos corporais confinados à sua potência reprodutiva, ao seu valor no mercado pornográfico, ao seu risco de contágio. O corpo ali na esquina, da vagabunda de cú rompido, cheia de verrugas, você vê?

Pera, é um homem disfarçado de mulher. O híbrido não é tão chique, nem tão glamouroso, quando escapa aos privilégios de classe, às redes de consumo. Nem tão chique nem tão romântica quanto aqueles queers estadunidenses, estes que desconstróem gêneros, com suas tatuagens e tintas no cabelo.

Há corpos que não se justificam pela referência bibliográfica, para quem a destruição do binarismo não possui nada de heroico, corpos que a teoria não salva nem liberta. Ctrl + S . Ctrl + C. Colagens estragadas, toscas, arruinadas.

Entre proteção e cuidado

setembro 15, 2013

é possível que exista uma diferença – às vezes grande, às vezes tênue – entre os movimentos de Cuidar e de “Proteger”.

Ambxs envolvem, em algum sentido, a preservação de um objeto, de um ser, de outra pessoa, etc…
Me parece que uma parte dessa diferença está na existência, ou não, de uma relação de “propriedade” com aquilo que ativa nosso movimento.

“Proteger” envolve uma atitude de preservar algo que consideramos “nosso” – ou que consideramos “de outra pessoa”. É uma relação onde as coisas/seres/pessoas não têm valor por si mesmxs, mas simplesmente pelo lugar utilitário que ocupam na sua vida ou na de outrem – e é isso que determina os gestos que se tomam por sua preservação.

“Cuidar”, por sua vez, só pode existir com aquilo/aquelxs que cessamos de estabelecer uma relação proprietária, dando vez a uma relação ética de responsabilidade pelos efeitos de como agimos perante a alteridade de uma determinada pessoa/ser vivente/ objeto.

Se a lógica da “proteção” é utilitária, a manutenção da eficiência, a manipulação, o cuidado pressupõe uma posição reconhecer que não podemos simplesmente dispor das coisas conforme são úteis para nós. E, justamente por não poder “dispor delas”, nos demanda um aprendizado muito mais rigoroso de como agir com elas.

É impossível ter uma relação de cuidado com uma casa que penso ser “minha”. Se penso que os objetos ali presentes precisam dobrar-se à conveniência dos meus hábitos, ou exclusivamente à eficiência do meu cotidiano, essa relação só pode implicar em algum tipo de desleixo. No melhor das hipóteses, “protejo” a organização da casa – para garantir-lhe uma eficiência utilitária – mas essa eficiência certamente vai criar uma assepsia tão insalubre quanto a tirania de uma “desordem” ao sabor das próprias conveniências.
Em todo caso, não construo uma relação de respeito à alteridade do espaço.

O mesmo vale para a relação com os animais – o que responde a falsa acusação de que, ao adotar umx cãx ou gatx para o mundo doméstico, necessariamente se está “aprisionando” outro ser.
Deixar animais na rua – dentro de um espaço urbano totalmente regido por necessidades humanas – não envolve qualquer tipo de respeito à alteridade dxs mesmxs. A relação adotiva pode, de fato, recair no viés da “proteção” – em que le cãx ou gatx é reduzidx a mero objeto de estimação para “le donx” -, mas existe a possibilidade de se construir uma afetação ética em que, justamente por não se pôr como proprietárie do animal, constrói-se uma atenção rigorosa à sua singularidade, suas necessidades, possibilitando uma relação de cuidado em que a parte humana se torne um pouco menos humana (menos racional, menos utilitária).

Amar com todas as forças aquilo que não demarcamos como “propriedade” é uma ética extremamente rigorosa e exigente, que parece muito pouco com os mantras simplistas de “liberar geral” – porque pressupõe um movimento exaustivo, por vezes doloroso, de sair das nossas próprias expectativas, necessidades, utilidades. Sem abrir totalmente mão delas, mas nos permitir jogar com elas.

cissexismo enquanto regime político

setembro 4, 2013

-> gênero é uma tecnologia de controle, vigilância, e normalização dos corpos

-> as ‘identidades de gênero’ (masculina/feminina/não-binário) são um efeito desse processo de normalização, uma parte do que mantém essa tecnologia em funcionamento. Mas “o gênero”, enquanto tecnologia de controle, não se reduz a elas.

Nesses termos:
destruir as identidades, ou esse processo de identificação individual com “masculino/feminino” não destrói, por si só, o gênero enquanto tecnologia de controle.

Porém, por esse mesmo motivo, torna-se totalmente equivocada a culpabilização freqüentemente dirigida às pessoas trans* de que estas estariam “reforçando o gênero”, posto que sua identificação – na leitura de determinadas feministas – se daria sempre e necessariamente a partir de uma estereotipificação do ‘sexo oposto’.

Essa leitura recai no mesmo problema de algumxs teóricxs “queer”: de reduzir o reforço ou a desconstrução do gênero a seus efeitos “identificatórios”.

Les trans* não são necessariamente nem mais subversives, nem mais ‘normatives’, do que pessoas cis.
São simplesmente pessoas que, tendo que sobreviver dentro de um regime heterocapitalista, negociam a construção de suas vidas a partir das figuras de identificação que melhor lhes expressam.
Que ‘melhor’ lhes expressem não quer dizer que suas identidades (homem/mulher/não-binárie) lhes definam totalmente; quer dizer, simplesmente, a tradução mais adequada – dentro do contexto em que vivemos – sobre como articulam seu desejo no mundo.
Da mesma forma, é certo que pessoas CIS são se reconhecem totalmente definides por sua identidade (homem/mulher), mas isso não lhes impede de ter

“mas o que faz com que [x-pessoa] se identifique com [y-identidadedegênero] se elea não tem [z/g/w/p/t-características]?”
-> não existe como responder essa pergunta, porque não existe uma resposta única. Processos de identificação são questões complexas que variam de pessoa a pessoa.

A afirmativa “tenho a alma de [identidadedegênero-x], mas nasci no corpo errado” vem sendo há muito tempo um ESSENCIALISMO ESTRATÉGICO, que busca dar expressão à necessidade séria destas pessoas serem reconhecidas por como se identificam – ao invés como o Estado decidiu lhes identificar.

É claro que, como QUALQUER essencialismo, essa afirmativa apresenta problemas – (a) posto que nem todas as pessoas trans* se identificam com ela (b) posto que subjetivar-se sob a idéia de um “corpo errado” decorre em um viés quase sempre centrado na necessidade de ‘correção cirúrgica’ (c) etc…

Mas o fato é que esse essencialismo – de conseqüências muito violentas para as pessoas trans* – respondia a uma necessidade Estratégica de legitimarem a aceitação dos seus corpos, suas identidades.

O fato é que não existe uma resposta ontológica sobre “o que constitui”, genericamente, as identidades trans*. Essa resposta vai ser sempre e necessariamente diversa.

A questão é que o respeito ou a legitimidade das identidades trans* não pode depender da resposta a essa pergunta.

O fato é que vivemos em uma sociedade que, mesmo que questionemos, faz das nossas identificações um eixo central para o que nos situa neste mundo. É possível que um mundo que operasse por devires – ao invés de identificações fixas – fosse muito mais interessante, mas não é o que vivemos.

O que entra politicamente em questão é o seguinte:
o que faz da “identidade de gênero”, do suposto “sexo”de alguém, um eixo de definição sobre o qual o Estado precisa ter a última palavra? Por que se constrói uma vigilância tão fechada e estrita sobre qualquer alteração nesse âmbito identitário?

Todas as respostas para essa pergunta parecem pressupor que qualquer tipo de auto-gestão sobre as categorias ‘masculino’/’feminino’ portam algum tipo de ameaça ao contexto heterocapitalista em que vivemos: nosso Estado trabalha, e MUITO, pra que pessoas com útero sejam Mulheres, e pessoas com pênis sejam Homens.

A vigilância cissexista é um dos pilares (muito embora não o único) da heterossexualidade enquanto regime político.
Nestes termos, qualquer processo que busque REALMENTE a destruição do gênero enquanto tecnologia de vigilância, precisa necessariamente questionar e confrontar os mecanismos normativos que reproduzem o cissexismo.
Precisamente porque esses são os MESMOS mecanismos que nos atingem, também nos produzem enquanto pessoas cis, fixadas aos lugares “homem/mulher”, posições a partir das quais a opressão (hetero)sexista se constrói.

guardiães do gênero

setembro 4, 2013

sobre pessoas que enunciam “eu destruí o gênero – não sou homem nem mulher” enquanto uma ação Individual:
desculpa, super-legítimo seu desejo, mas não existe isso de “destruir gênero” só porque você decidiu sozinhe.

Gênero é uma tecnologia relacional, tudo o que envolve sua construção ou desconstrução envolve empreendimentos necessariamente coletivos.

Faz sentido os enunciados que dizem: “nós destruímos o gênero”, ou “nós anulamos os efeitos do gênero – aqui, neste espaço, entre estes corpos”.
Nós. No plural. Entre matilhas sexoafetivas dissidentes.

Esse “eu” individual, que simplesmente “decide” não ter mais gênero por força da vontade de sua razão, não destrói nada. É a voz do policial que se coloca por fora, ou acima da lei, para melhor vigiar dos corpos alheios, e desfrutar do poder que isso proporciona.

Talvez seja um dos mais acirrados mantenedores do gênero.

Teoria Transviada

setembro 4, 2013

Teoria Transviada (aka: traição sudaca-brasileira de ‘teoria queer’) não se trata simplesmente de afirmar que ‘não temos gênero’, ou que simplesmente ‘somos o masculino/feminino conforme escolhemos’.

Trata-se de uma análise, de um mapa, sobre os mecanismos de controle e opressão implicados na excessiva importância que nossa sociedade dá ao “sexo” (ficção somatopolítica supostamente biológica) como um definidor fixo sobre quem somos, e sobre os mecanismos de vigilância que impedem que auto-gestionemos essa definição sobre quem somos.

A luta pela possibilidade nomear a nós mesmes/a nossxs corpxs conforme queremos não é uma questão meramente individual, de “quero que me vejam e me chamem assim”.
É uma questão sobre mecanismos de opressão e normalização coletivos, que atravessam a todxs nós, que geralmente operam de forma invisível e silenciosa, mas que ganham ruído e visibilidade quando algumas pessoas dizem “quero que me chamem assim – dessa forma que não condiz ao que o Estado espera”.

A militância transviada consiste na visibilização e no combate a esses mecanismos de normalização.
A Teoria Transviada consiste em confrontar – nos âmbitos acadêmicos ou extra-acadêmicos – a Racionalização dessa vigilância e dessa normalização.
E enfrentar o paradoxo de que, muitas vezes, a racionalização legitimadora dessa vigilância se dá nos próprios espaços que se propõem a destruí-la.