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da supremacia cis entre feministas

janeiro 10, 2014

Fazem já alguns anos em que venho buscando dinamitar a posição de “homem”, à qual meu corpo foi politicamente assignado. Também já há alguns anos que experimento “disforias” corporais – na qual sinto meu corpo, suas partes, como algo distinto do que aparece a  outras pessoas como um ‘organismo masculino’. Faz pouco mais de dois anos que venho buscando dar expressão visual a essa vivência. Essa expressão deu visibilidade a uma série de conflitos e exercícios de violência – vindo de pessoas na rua, da universidade onde estudo, da minha família – às vezes mais explícitos, às vezes mais velados. Ciente que todas essas violências foram suavizadas por minha condição de passabilidade cis (que, no caso da minha assignação de gênero, implica em certos privilégios masculinos).

Faz pouco mais de uma semana, no entanto, que comecei a me afirmar explicitamente enquanto uma pessoa trans* não binária – em vista que, neste momento, não me identifico às posições de ‘homem’ ou ‘mulher’. Não por uma questão política abstrata, de entender que essas categorias precisam desaparecer politicamente (com o que concordo), mas por uma questão de minhas vivências: como sinto meus corpos, meus prazeres, como quero me relacionar e como quero ser percebide. Me afirmo como trans* por entender que essas experiências não são mera “ficção”, “imaginação” ou simplesmente “coisa da minha cabeça”: são vivências reais, com efeitos concretos, que merecem visibilidade e – sobretudo – respeito.

Pode ser que algum dia eu venha a me identificar enquanto “mulher”, e pode ser que não. Em todo caso, luto para que minha experiência – minha vida – seja tomada enquanto legítima. Luto para que minha vivência, e a de todas as pessoas trans*, seja respeitada.

Isso colocado, há algo vindo de espaços feministas que já não posso mais silenciar nem relativizar: o exercício da cis-supremacia, da violência transfóbica, contra minhas irmãs e irmãos trans*. Estes exercícios de transfobia que me afetam (direta ou indiretamente), ao reforçar e legitimar discursos/práticas patriarcais que me privam dos meus direitos, me vulnerabilizando a situações de violência (mesmo que não sejam exercidas diretamente por estas feministas).

O que estou chamando de supremacia cis? Trata-se do poder autorizado pelo patriarcado, que lhes legitima a legislar sobre quem são “verdadeires” mulheres/homens, ou  “verdadeires” fêmeas/machos, ou as “verdadeires” [insira aqui qualquer termo que possa ser usado para mascarar sua supremacia cis].

É o poder de decidir quais pessoas trans* “passam” e quais “não passam” – quais merecem ter sua identidade respeitada, e quais podem ser todo o tempo deslegitimadas, ter pronomes trocados, aprisionando-lhe dentro de sua assignação sexopolítica.

É de se entender que, dentro da nossa sociedade patriarcal, esse poder de legislar sobre a identidade de gênero alheia é uma prerrogativa exclusiva (ou predominantemente) de pessoas cis. Principalmente de homens cis – em vista que ocupam mais posições de poder -, mas também é um poder exercido por mulheres cis.

E o feminismo tem sido um dos espaços em que exercem esse privilégio, em torno da negociação do sujeito político de seu movimento, quando se vem à tona incluir a participação de mulheres e homens trans* dentro do movimento. Há pautas políticas comuns à mulheres cis e trans* (tais como a luta contra a cultura do estupro, contra os padrões de feminilidade); há pautas feministas comuns a mulheres cis e alguns homens trans* (a luta contra o estupro corretivo, a luta pela descriminalização do aborto e todas as questões que envolvem direitos reprodutivos) – pautas políticas que sempre foram, historicamente, bancadas pelo feminismo.

Mas, mesmo quando reconhecem a pluralidade de especificidades e demandas implicadas no grande guarda-chuva “mulher” (referente a questões tais como raça, classe, sexualidade), muitas traçam uma linha divisória quando envolve incluir as pessoas trans*. Mulheres trans* são excluídas porque, aparentemente, não possuem “vivência o suficiente em torno da condição de mulher” (seja por terem vivido parte de suas vidas identificadas enquanto ‘homens’; seja porque não podem gestar/abortar; seja porque podem engravidar mulheres cis ou homens trans*). Homens trans* são ou excluídos, por identificarem-se com a figura do “opressor”, ou são incluídos dentro de um contexto que nega o tempo inteiro suas identidades (ao tratar-lhes todo o tempo enquanto fêmeas). Pessoas trans* não-binárias são excluídas seja por um motivo, seja por outro – mesmo quando sofrem transmisoginia, ou mesmo quando enfrentam a violência de terem sido sexopoliticamente assignadas “mulheres”.

A mensagem que quero enviar a estas feministas – cúmplices à cis-supremacia e, portanto, ao patriarcado é: homens que podem gestar/abortar não são “fêmeas”. Mulheres que não podem gestar/abortar (dentre as quais incluem-se algumas mulheres cis, patologizadas pelo discurso médico como ‘inférteis’) não são “machos”.

Todes temos histórias distintas. Estamos em situações distintas. E essa ‘sororidade’, que aceita apenas a narrativa de mulheres cis como válidas para oferecer apoio e aliar-se politicamente, não é nada mais que o exercício do seu privilégio cis. Que tem efeitos muito mais perversos do que vocês se dispõem a perceber.

Pessoas trans* estão sendo acusadas de “dividir” o feminismo ao darem visibilidade à transfobia. Discurso muito parecido ao de machistas anarquistas/marxistas, acusando o feminismo de dividir a luta de classes. Discurso muito parecido ao dos discursos nacionalistas, que acusam as feministas, as travestis, as lésbicas, os gays, etc de estarem “dividindo” a Nação. Quer dizer: a demagogia da divisão não possui nada de novo. É a velha tática, de pessoas em posição de poder demonizando aquelas que questionam seus privilégios, buscando que sintam-se culpadas por romper seus silêncios. De forma a intimidar, e gerar mais silêncio.

E o silêncio, bem sabemos: nunca nos protegeu e não vai nos proteger. Não vamos mais aceitar pessoas que nos segregam e violentem, apenas esperando para que outro nos mate e finjam que não tiveram nada a ver.

Exercícios de transfobia e de cis-supremacia não passarão.

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