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cissexismo enquanto regime político

setembro 4, 2013

-> gênero é uma tecnologia de controle, vigilância, e normalização dos corpos

-> as ‘identidades de gênero’ (masculina/feminina/não-binário) são um efeito desse processo de normalização, uma parte do que mantém essa tecnologia em funcionamento. Mas “o gênero”, enquanto tecnologia de controle, não se reduz a elas.

Nesses termos:
destruir as identidades, ou esse processo de identificação individual com “masculino/feminino” não destrói, por si só, o gênero enquanto tecnologia de controle.

Porém, por esse mesmo motivo, torna-se totalmente equivocada a culpabilização freqüentemente dirigida às pessoas trans* de que estas estariam “reforçando o gênero”, posto que sua identificação – na leitura de determinadas feministas – se daria sempre e necessariamente a partir de uma estereotipificação do ‘sexo oposto’.

Essa leitura recai no mesmo problema de algumxs teóricxs “queer”: de reduzir o reforço ou a desconstrução do gênero a seus efeitos “identificatórios”.

Les trans* não são necessariamente nem mais subversives, nem mais ‘normatives’, do que pessoas cis.
São simplesmente pessoas que, tendo que sobreviver dentro de um regime heterocapitalista, negociam a construção de suas vidas a partir das figuras de identificação que melhor lhes expressam.
Que ‘melhor’ lhes expressem não quer dizer que suas identidades (homem/mulher/não-binárie) lhes definam totalmente; quer dizer, simplesmente, a tradução mais adequada – dentro do contexto em que vivemos – sobre como articulam seu desejo no mundo.
Da mesma forma, é certo que pessoas CIS são se reconhecem totalmente definides por sua identidade (homem/mulher), mas isso não lhes impede de ter

“mas o que faz com que [x-pessoa] se identifique com [y-identidadedegênero] se elea não tem [z/g/w/p/t-características]?”
-> não existe como responder essa pergunta, porque não existe uma resposta única. Processos de identificação são questões complexas que variam de pessoa a pessoa.

A afirmativa “tenho a alma de [identidadedegênero-x], mas nasci no corpo errado” vem sendo há muito tempo um ESSENCIALISMO ESTRATÉGICO, que busca dar expressão à necessidade séria destas pessoas serem reconhecidas por como se identificam – ao invés como o Estado decidiu lhes identificar.

É claro que, como QUALQUER essencialismo, essa afirmativa apresenta problemas – (a) posto que nem todas as pessoas trans* se identificam com ela (b) posto que subjetivar-se sob a idéia de um “corpo errado” decorre em um viés quase sempre centrado na necessidade de ‘correção cirúrgica’ (c) etc…

Mas o fato é que esse essencialismo – de conseqüências muito violentas para as pessoas trans* – respondia a uma necessidade Estratégica de legitimarem a aceitação dos seus corpos, suas identidades.

O fato é que não existe uma resposta ontológica sobre “o que constitui”, genericamente, as identidades trans*. Essa resposta vai ser sempre e necessariamente diversa.

A questão é que o respeito ou a legitimidade das identidades trans* não pode depender da resposta a essa pergunta.

O fato é que vivemos em uma sociedade que, mesmo que questionemos, faz das nossas identificações um eixo central para o que nos situa neste mundo. É possível que um mundo que operasse por devires – ao invés de identificações fixas – fosse muito mais interessante, mas não é o que vivemos.

O que entra politicamente em questão é o seguinte:
o que faz da “identidade de gênero”, do suposto “sexo”de alguém, um eixo de definição sobre o qual o Estado precisa ter a última palavra? Por que se constrói uma vigilância tão fechada e estrita sobre qualquer alteração nesse âmbito identitário?

Todas as respostas para essa pergunta parecem pressupor que qualquer tipo de auto-gestão sobre as categorias ‘masculino’/’feminino’ portam algum tipo de ameaça ao contexto heterocapitalista em que vivemos: nosso Estado trabalha, e MUITO, pra que pessoas com útero sejam Mulheres, e pessoas com pênis sejam Homens.

A vigilância cissexista é um dos pilares (muito embora não o único) da heterossexualidade enquanto regime político.
Nestes termos, qualquer processo que busque REALMENTE a destruição do gênero enquanto tecnologia de vigilância, precisa necessariamente questionar e confrontar os mecanismos normativos que reproduzem o cissexismo.
Precisamente porque esses são os MESMOS mecanismos que nos atingem, também nos produzem enquanto pessoas cis, fixadas aos lugares “homem/mulher”, posições a partir das quais a opressão (hetero)sexista se constrói.

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