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O Casamento Gay É uma causa conservadora

abril 11, 2013

(Yasmin Nair)

O casamento gay será legalizado nos Estados Unidos. Talvez isso não aconteça nos próximos seis meses, ou mesmo em um ano, mas é uma inevitabilidade em breve. É claro, como apontado por muit*s de nós desde o início dessa iludida campanha de investir em uma instituição sexista e capitalista, o advento do casamento gay aqui ou em qualquer lugar não é de forma alguma garantia do fim da desigualdade. Como disse antes, eu verei o casamento gay na minha vida, mas nunca verei sistema de saúde universal (de verdade, não o “Obamacare”)

Há uma pressa entre variados grupos e indivíduos em declarar seu amor e suporte acríticos pelo casamento gay ou, no mínimo, em se aparentar defensor*s de gays. Celebridades hétero estão se agarrando com muita força, e sair do armário enquanto gay será para tod*s um requerimento de carreira, parte do pacote de dossiês e figurões nas agências. Logo, ao invés de questionad*s sobre algum segredo gay em seus armários, aspirantes a celebridade (ninguém quer mais atuar, apenas ser realmente famoso por nada em particular) serão questionad*s porque não têm nenhum passado, presente ou futuro gay.

Os conservadores, David Cameron entre eles, estão entrando em cena reconhecendo aquilo que nós, em “contra a igualdade”, falávamos desde o início: que o casamento é a ferramenta mais prática do neoliberalismo. Michael Bloomber, o bilionário favorito de todo democrata, entrou nessa, tal como os executivos de inúmeras “Fortune 500 Companies”.

Tudo isso vem levando gays e seus aliados héteros a exultarem em ter o apoio dos conservadores. Aparentemente, não há nada confirmando que uma causa é correta, progressiva e bacana para além do fato de que um bando de capitalistas gordos – que apoiaram a exploração do mundo e geralmente possuem políticas assustadoras em torno de raça, gênero e neo-colonialismo – também a apoiam.

De tudo isso emerge um enunciado implícito de que até os conservadores apóiam o casamento gay, que até conservadores admitem que o casamento gay é uma coisa boa. Significa que existe, de algum moto, um argumento de esquerda a ser feito sobre o casamento gay.

Mas nunca houve um argumento de esquerda para o casamento gay. Nada do que os esquerdistas, progressistas e liberais argumentaram em defesa do casamento gay tem sido algo além de um argumento profundamente conservador. Gays e lésbicas deveriam poder se casar pelo seguro-saúde? Isso simplesmente fortalece o poder do estado neoliberal, compelindo pessoas a se casarem e carregar o fardo do seu próprio cuidado, ao invés de criar, por exemplo, um sistema que garanta benefícios de saúde a tod*s independentemente do seu estado civil. É uma questão “simplesmente de igualdade”? Mas como um sistema que nega sistematicamente esses mesmos benefícios a pessoas solteiras seria qualquer coisa, senão desigual? Negar o casamento a alguns é negar-lhes sua habilidade de amar e de ter seu amor afirmado? Se o seu amor depende do reconhecimento do Estado, seu relacionamento está em um risco maior do que você imagina. Pessoas pobres irão, de alguma forma, se beneficiar do casamento acessando o seguro-saúde de s*u*s parceir*s? Os problemas das pessoas pobres não advém da sua inabilidade em casar-se e, num país sem acesso universal à saúde, o casamento apenas compõe com sua pobreza. E, realmente, se você é pobre é provável que nem você nem seu parceiro possuem seguro-saúde de qualquer maneira; a última coisa que você quer é aumentar o fardo no seu lar aumentando o número de pessoas dentro dele.

E então, é claro, existem os argumentos proto-conservadores pelo casamento gay feitos pelos gays que, talvez por medo de serem rotulados como homofóbicos, héteros esquerdistas-progressivas não têm tido vontade de denunciar. Isso inclui a flagrante afirmação de que o casamento gay formará famílias melhores e mais estáveis, ou que duas pessoas casadas são pais/mães melhores do que aquel*s indecentes e promíscu*s pais/mães solteir*s. Ou a cereja do bolo: de que o casamento gay poderia ajudar a terminar com a AIDS – argumento com o qual lidarei em profundidade num post futuro porque, realmente, é um argumento tão de merda, insensível, equivocado e babaca que merece mais do que algumas palavras.

Por ora, deixe-me simplesmente dizer que se alguém dissesse que o casamento (hétero) previne DST’s, ou quer mulheres/homens solteir*s são mães/pais piores do que pessoas casadas, el*s seriam alvo de risadas, ridicularizad*s e lançadas pra fora da existência. Jezebel, Feministing e várias feministas furiosas teriam semanas dignas de posts sobre isso. Ainda assim, quando gays falam esse tipo de coisa, seus amigos heterossexuais simplesmente concordam – como se estes não fossem os comentários mais vis, nojentos e neandertais que poderiam emergir de porcos misóginos disfarçados de gays e lésbicas racionais (e sim, mulheres podem ser misóginas patriarcais também).

Não é um acidente que o David Cameron está saindo do armário em apoio ao casamento gay no exato momento que o sistema de saúde britânico está encarando cortes que poderiam eviscerar um sistema que beneficia os mais pobres de uma maneira que a maioria dos Amerianos não conseguem vislumbrar (e não apoiarão totalmente de fato). Cameron não está apenas saindo do armário em apoio ao casamento gay porque ele acha que o casamento é uma boa ideia para a sociedade (o que se encaixa perfeitamente bem no neoliberalismo): ele está fazendo isso porque ele gostaria de mais pessoas se casando e tomando conta umas das outras de modo que o Estado possa voltar a tirar verbas do sistema de saúde nacional. Principalmente, o que Cameron, Bloomberg e sua laia estão percebendo é que o casamento nunca foi uma causa para as pessoas queer de base, como o arquivo “Against Equality” demonstra amplamente. De fato, o casamento tem sido a antítese de tudo o que as pessoas queer desejam, e  só se tornou uma questão na metade dos anos 90 com a asceção de uma comunidade gay conservadora que começou a exercer seu poder através de organizações tais como “Human Rights Campaign” e “National Gay and Lesbian Task Force”.

Penso que a maioria dos esquerdistas-progressitas que lêem esses enunciados dos conservadores de fato os entendem como reflexo da realidade do casamento gay e porque, convenhamos: David Cameron. Mas eles não têm vontade de levar adiante seu desconforto e expandir sua crítica a este fervoroso desejo pelo casamento gay porque não querem ser lidos ou vistos como homofóbicos, e porque a maioria dos esquerdistas-progressistas-liberais não têm ideia de como desembaraçar suas cabeças da ideia inteiramente errônea de que Gay = Esquerda.

Deixemos nós, queers que entendem os problemas do casamento gay enquanto uma questão social e economicamente conservadora e nossos aliados heteros, começarmos a dispensar a ideia tola de que já houve qualquer coisa sobre o casamento gay que poderia ser vagamente descrita como de esquerda/liberal/progressiva. Ao invés, progressistas, liberais e auto-declarad*s esquerdistas fariam bem em ecoar o republicano Jon Hunstman e falar a verdade diretamente: que o casamento gay é uma causa conservadora.

Não existe um argumento conservador separado para o casamento gay. Nunca houve um argumento de esquerda/progressitas pelo casamento gay. A surpresa não é que o casamento gay está sendo agora abraçado por conservadores e neoliberais. A surpresa é que levou tanto tempo para o fazerem.

tradução livre do link: http://www.yasminnair.net/content/gay-marriage-conservative-cause

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