Skip to content

Carta em repúdio à RBS – sobre o “homem que veste saias”.

novembro 13, 2012

Escrevo essa carta como um apelo de solidariedade a todas as pessoas que, em virtude de se expressarem fora dos padrões que convém a um “verdadeiro homem” ou uma “verdadeira mulher”, encontram-se expostas ao risco de violência.

Na quarta feira, dia 07 de Novembro de 2012, o Jornal do Almoço da RBS lançou uma notícia (disponível no link http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/jornal-do-almoco/videos/t/edicoes/v/policia-procura-homem-que-ataca-mulheres-na-capital-usando-saias/2229468/ )que inicia com a seguinte chamada:

“A polícia da capital está investigando um homem que está assustando moradores e principalmente moradoras dos bairros próximos à Universidade Federal. Há meses ele ataca mulheres, e dois detalhes absurdos chamam ainda mais a atenção: ele faz isso em plena luz do dia; e usando uma saia. É isso mesmo.”

Gostaria de começar interrogando à repórter sobre esses dois “detalhes” que, segundo afirma, são tão absurdos ao ponto de chamar mais atenção do que a própria violência cometida contra essas mulheres: que a violência tenha se dado à luz do dia, e o fato do agressor estar vestindo saias.

Acaso a violência sexual contra mulheres que acontece durante a noite tornou-se tão “banalizada”, que somente aquelas que acontecem à luz do dia são motivos de escândalo? Seria porque, quando uma mulher é violentada durante a noite, costuma escutar pessoas lhe dizendo que “a culpa era dela por transitar sozinha naquele espaço”? Então, como em nossa cultura machista a noite é proibida para as mulheres que transitam “sem um homem”, apenas durante o dia o estupro torna-se um absurdo?

O segundo ponto – em que eu gostaria de focar esta carta – refere-se ao segundo detalhe destacado como “absurdo”: o fato do homem usar saias. Chama-me atenção o fato desse “detalhe” ter sido tão destacado, ao passo que outras descrições que permitem identificá-lo recebem um peso significativamente menor.

Em um determinado trecho da notícia, a voz de um dos repórteres narra em off: “esta outra imagem da câmera de outro condomínio também flagrou o homem de saia pela rua”. Destaco aqui que as palavras utilizadas são “o homem”, e não “um homem” de saia, sugerindo que o único homem a utilizar dita vestimenta fosse necessariamente o agressor. Esta forma de noticiar estabelece uma associação rápida entre “dissidência de gênero” (no caso: desobedecer um código de vestimentas culturalmente considerado masculino) e violência sexual. E, do o caráter extremamente sensível que a agressão sexual ocupa em nossa cultura, há uma alta possibilidade de que esta notícia acabe por incitar violência contra quaisquer pessoas que se expressem fora dos códigos considerados adequados para seu próprio sexo.

Deixando as coisas mais claras: eu que vos escrevo sou apenas mais uma, dentre tantas outras, pessoas identificadas enquanto “homens” que gostam de vestir saias – não pela afirmação de uma ‘identidade de gênero’, ou por qualquer condição psicológica/sexual, mas simplesmente por não querer limitar meu guarda-roupa sob o que é considerado conveniente ao masculino. Então eis que, no mesmo dia da notícia, recebi um telefonema de minha família pedindo-me para não sair vestindo saias. A preocupação, obviamente, não era com a polícia (afinal quem não deve, não teme) mas que identificação “homem vestindo saias = agressor sexual” (sugerida pela notícia veiculada) pudesse implicar em ameaças contra a minha própria integridade física por parte de outras pessoas. Apesar de não ter ampla leitura acerca de ética no jornalismo, considero que algo está bastante errado quando as decorrências de uma notícia implicam que eu precise ou me ‘esconder’, ou censurar a maneira como gosto de me expressar, para que não me confundam com um bandido na rua.

Ainda assim, considero minha situação relativamente um privilégio: enquanto ainda sou uma pessoa auto-identificada como “homem”, posso simplesmente escolher uma calça em meu guarda-roupa pra sair de casa – preservando, mesmo que através de uma auto-censura, minha segurança. A questão talvez não seja tão simples para outras pessoas, tais como mulheres travestis e trans*,  para quem assumir o lugar do ‘sexo oposto’ àquele que foram identificadas ao nascer é algo vital para tornar sua vida mais habitável

Vivemos em um país onde mulheres travestis e transexuais são assassinadas com uma freqüência significativamente alta, expostas cotidianamente a agressões físicas, justamente por serem entendidas como “doentes”, “perversas”, “sexualmente desviantes”. Vivemos em um contexto onde “transexualidade” ainda é considerada uma patologia pelos manuais de psiquiatria – legitimando que a estas pessoas lhes sejam negados direitos fundamentais tais como moradia, educação e trabalho.  Neste sentido, veicular notícias que estabeleçam nexos incabíveis entre “dissidência sexual e periculosidade pública” tende a piorar ainda mais as violências e exclusões que atingem esta população.

Enquanto feminista, enfatizo que é sim relevante chamar a atenção pra todo tipo de violência sexual sofrido por mulheres – aconteça de dia ou à noite, e independente da roupa que seu agressor esteja trajando. Mas ressalto também (levando em consideração inúmeras pesquisas acadêmicas) que a violência sexual não é simplesmente uma “tara”, fruto de “pessoas com uma sexualidade perversa” – mas a manifestação de nossa cultura machista, que considera o corpo das mulheres como propriedade para o exercício do poder masculino. Muito embora o estupro seja sim um elemento de coerção para atemorizar que as mulheres transitem pelos espaços públicos, a maior parte das violências sexuais não são cometidas por “perversos nas ruas”, mas por pessoas consideradas socialmente respeitáveis (muitas vezes o próprio marido ou companheiro da vítima).

Dado a forte possibilidade de que esta notícia incite violências contra pessoas que já estão cotidianamente vulneráveis, venho por meio desta carta repudiar a reportagem feita pela RBS, e exigir que viabilize uma retificação em relação a esta notícia – esclarecendo que não existe relação alguma entre vestir-se fora do que convém ao seu próprio sexo, e aqueles que cometem agressões sexuais.

Atenciosamente,

Arthur Grimm Cabral – militante feminista, doutorando em Psicologia pela UFSC.

Anúncios
2 Comentários leave one →
  1. Marcelo Tskin permalink
    novembro 14, 2012 1:17 am

    WTF?!? O destaque ao uso de saias se deve a dois motivos:
    1) não é algo corriqueiro encontrar homens por aí usando saias. Não faz parte da nossa cultura. E tudo que não faz parte da nossa cultura, chama mais a atenção, dá mais audiência. Se vivêssemos em um país no qual todos os homens vestissem saias e um maníaco atacasse mulheres vestindo calças, isso seria destacado.
    2) o bandido ataca mulheres usando saias. E parece que ele faz isso SEMPRE usando saias. A vestimenta é uma característica do bandido (não da sua personalidade, claro), ajuda a identificá-lo. Se ele atacasse mulheres sempre vestindo um uniforme do Grêmio ou do Internacional, provavelmente isso também seria destacado. O que não significaria que a RBS tem algo contra torcedores do Grêmio ou do Internacional.
    O autor desse texto ajudaria muito mais se usasse o seu tempo para tentar localizar esse maníaco violento em vez de escrever tolices como essa.

  2. novembro 14, 2012 4:08 am

    —–
    1) Não é questão da notícia ter citado o fato dele usar saias, e sim ter dado ênfase neste fato como um “absurdo” (junto ao fato dele ‘atacar’ de dia – como se ataques à noite fossem normais). Outra notícia (no portal do Terra, se não me engano) divulgou a mesma coisa, só que com uma linguagem muito mais objetiva e menos escandalosa.

    2) Ao contrário de facilitar a localização, a notícia DIFICULTOU o trabalho da polícia – posto que divulgou amplamente (inclusive ao próprio criminoso) as características através das quais os investigadores esperavam localizá-los, de modo que o agressor dificilmente sairá vestido com os mesmos trajes novamente.
    Ou seja, é um típico jornalismo irresponsável: facilitou para o criminoso se esconder; além de expor outros homens que usam saia e Não agridem mulheres à serem agredidos pela população.

    3) Eu moro e estudo no mesmo bairro em que o agressor está agindo, e muitas pessoas me conhecem de vista por aqui como “o rapaz que usa saias”.
    Sabe como é a sensação de sair na rua (e mesmo sem estar usando saias, muita gente das redondezas me reconhece por já ter me visto vestindo-as) e ter medo que as pessoas te confundam com dito agressor sexual – sabendo que em função disso você pode inclusive ser agredido? E que, no exato momento em que eu tenho medo, o próprio agressor provavelmente já trocou de roupa e talvez inclusive de horário (porque imaginam que ele só vá atacar de dia) para tranqüilamente agir como sempre agiu sem ser reconhecido?

    4) O autor desse texto entende que atuar pelo fim de toda a nossa Cultura de estupro – que legitima a violência dos homens contra as mulheres – através de trabalhos com educação e militância política é muito mais produtivo para acabar com a violência do que apenas localizar um ou outro “maníaco sexual” que age isoladamente.
    A maior parte dos estupros não acontece em situações como essa – mas dentro dos próprios lares, cometidos pelos próprios companheiros – e sequer são considerados “absurdos” por quem trabalha no âmbito do jornalismo. Acabar com essa cultura me interessa muito mais.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: