Skip to content

Sobre quebra-quebras (do femen ou não)

novembro 12, 2012

Na data de hoje, uma notícia vêm circulando nas redes sociais: a de que ativistas do grupo FEMEN BR invadiram a loja da Marisa, provocando um quebra-quebra, com mensagens no corpo em protesto contra o machismo promovido por esta marca. Tal ato se dá num contexto em que, nas mesmas redes sociais, vêm circulando campanhas de protesto contra a Marisa – em função dos comerciais de caráter sexista que vêm sendo utilizados para promovê-la.

No entanto esta ação provocou indignação por parte de muitas feministas. Em boa parte, efetivamente, por uma desconfiança (mais que justificada) em relação ao FEMEN BR- organização auto-entitulada “feminista” que mais recebeu destaque nos últimos meses, mas que vêm nos decepcionando por uma série de aspectos: falta de clareza em seu posicionamento político; por um certo uso de nudez em atos políticos que reifica padrões de beleza racistas e misóginos; bem como pela suspeita da vinculação de uma de suas integrantes (Sara Winter) com grupos neonazistas. Uma vez que estas questões vieram a público, o Femen afastou-se temporariamente da grande exposição pública em que se mantinha nos meses anteriores – até retornar à cena hoje, neste ato contra a Marisa. A sensação que nos dá é, precisamente deste grupo estar se utilizando de manifestações construídas no âmbito das redes sociais para se auto-promover.

Mas há um segundo aspecto da crítica ao ato do FEMEN-BR, que diz respeito não à sua organização, mas á estratégia adotada: muitxs consideram o vandalismo, o quebra-quebra, algo inadequado enquanto ferramenta de luta – posto que parece “queimar o filme” do ativismo ‘respeitável’ das que vinham dialogando com a Marisa até então. E é sobre esta crítica (não especificamente sobre o FEMEN-BR) que pretendo falar neste texto, posto que me parece uma boa oportunidade para dialogar sobre Ação Direta e as estratégias de luta que temos adotado.

Vivemos em uma época de grande euforia sobre a potencialidade política das chamadas “Redes sociais”, consideradas, muitas vezes, responsáveis por grandes “transformações sociais”. Atribui-se às R.S tanto as revoluções que aconteceram no Egito, quanto a eleição da primeira presidenta mulher (Dilma Rousseff), no Brasil.

Neste último ano, as Redes sociais têm articulado e veiculado lutas contra um dos veículos que mais potencializa o machismo, o racismo e a homofobia em nossa sociedade: a publicidade. Propagandas como a de Prudence e de Nova Schin, que erotizavam o sexo sem consentimento foram alvos de inensas críticas, debates e denúncias. No caso Prudence, a empresa retratou-se – no caso de Nova Schin, não. Mais tarde, vieram à tona propagandas da marca Marisa – reiterando padrões de mulher e homens extremamente estereotipados e machistas – que provocaram uma onda de reações (também pela internet).

Pode-se dizer que a euforia relativa às Redes Sociais desenvolveu, atualmente, o retorno da crença na política da representação. Acreditamos, atualmente, que postar críticas na página de certas empresas /blogar sobre determinadas temáticas / operacionalizar abaixo-assinados são ações suficiente pra promover as transformações políticas que desejamos. Só que de fato, não são.

 Manifestações de internet só interessam ou afetam as empresas que criticamos em 2 momentos: quando nós fazemos especificamente parte do grupo-consumidor qual determinada empresa deseja atingir; e quando a imagem que esta empresa busca vender em sua publicidade está diretamente relacionada a preceitos de ética e democracia.

O exemplo mais nítido dessa situação foi o caso da Prudence que, pouco tempo após críticas à apologia de estupro por parte de uma de suas propagandas, retirou a propaganda do ar, emitiu um pedido de desculpas, e vêm criando propagandas com mensagens de respeito à diversidade sexual. Ora.. nada disso se deu porque a Prudence seja “muito legal”, nem porque seus profissionais sejam especificamente competentes – mas por um aspecto bastante específico: a venda de preservativos está simbolicamente ligada às tantas políticas de promoção dos direitos sexuais e reprodutivos – entre as quais o Brasil é um dos signatários – dos últimos 20 anos. E, estando tais políticas diretamente relacionadas às lutas feministas, mostrar-se como uma empresa que ignora o direito das mulheres a uma vida livre de violências lhes colocaria em uma situação trágica do ponto de vista publicitário. Isso situa sua revisão da propaganda e seu pedido de desculpas.

Diferentemente da Prudence, tanto Nova Schin quanto Marisa são marcas cuja imagem está totalmente desatrelada de questões como feminismo ou promoção de direitos – e que tampouco visam, entre um público de classe média politicamente engajado, o público-alvo para seus produtos. Assim o sendo, lhes dá igual que feministas lhes enviem mensagens com críticas às suas propagandas. Pelo contrário, suas propagandas parecem encontrar eco principalmente em determinados setores da população que Odeiam as feministas, que se ressentem dos direitos que elas conquistaram – pessoas para quem a idéia de um mundo sem privilégios masculinos, sem demarcações rígidas entre o que devem ser “mulheres” e o que devem ser “homens”, parece abominável.

Neste contexto, faz muito pouco sentido adotar – frente a empresas como Nova Schin e Marisa – a mesma política adotada frente à Prudence. As respostas que estamos obtendo são bastante claras: em relação à Nova SCHIN, o inflexível descaso da CONAR em proceder com as denúncias; em relação à Marisa, a criação de um fake parodiando um suposto contexto de debate com as feministas. Entre muitas coisas (além do extremo conservadorismo que assola nossa sociedade), tais fazem nos dar conta de que nosso ativismo digital possui limites, e que – se desejamos mudanças – outras ações mais enérgicas são exigidas para que nos levem a sério.

É neste contexto que situo a importância de ações como essa, que muitxs chamam de “vandalismo” – tal como a que foi encenada pelo FEMEN. De fato, é possível que essa ação tenha sido tanto para auto-promoção da organização de Sara Winter, quanto uma tentativa de desmoralizar o movimento contra as propagandas da Marisa. Em ambos os casos, essa ação simboliza algo muito mais significativo: nos mostra precisamente aquilo que estas empresas (as que não vêem nas feministas um “mercado” para seus produtos) temem que as feministas comecem a fazer – reagir com raiva.

Porque até agora, na maior parte dos protestos contra a mídia machista, nos posicionamos sempre sob a lógica burguesa de “potenciais consumidoras” que negociam a publicidade mais conveniente para comprar determinados produtos – atuando como se apenas aquelxs com dinheiro no bolso fossem afetadxs pela publicidade machista. Compramos a idéia de que esta barganha é a única forma da mídia dialogar conosco. Só que 1) tal barganha torna-se impotente quando não somos o “mercado-alvo” almejado pela empresa 2) essa não é a única estratégia que possuímos.

É aí que entra em jogo a Ação direta. É aí que entra em jogo a sabotagem: quebrar tudo, rasgar, lançar tinta nos produtos. Responder diretamente, com as armas que possuímos, à violência que sofremos. Não nos conformar a ser simplesmente consumidoras, barganhando para comprar o produto que lhe é mais conveniente (seja pelo melhor preço, seja por adotar o discurso mais bonito).

Se temos medo de queimar o filme – queimar o filme para quem? Para a mesma mídia machista que nos zomba, que nos satiriza? Nos tornamos de fato menos legitimados quando ações desse caráter acontecem – será que nossa legitimidade já não se perdeu há muito tempo? Será que nos fazermos temidxs pela reação que seus comerciais podem provocar não é uma forma muito mais eficaz de recuperar nossa legitimidade, para enfim sermos ouvidxs?

Anúncios
2 Comentários leave one →
  1. Roberta permalink
    novembro 13, 2012 6:51 pm

    Li seu texto, concordo em parte com ele. Ser um/a guerrilheira/o de teclado não necessariamente inviabiliza uma luta nas ruas, não? Te encontrei no ato de apoio aos guaranis – uma manifestação pacífica e linda. Na verdade, quando a/os guerrilheira/os de teclado disseram que o grupo Femen-Br não a/os representa é por questões anteriores. o discurso dessas meninas é, muitas vezes, um discurso de ódio. Eu não quero nenhuma associação ao ódio. Os fins nem sempre justificam os meios. Talvez a Marisa nunca de retrate, talvez estejamos todos perdendo tempo, mas acredito [quero acreditar] que alguém, depois dessa bagunça toda, deve ter parado e refletido sobre esse machismo nazista que anda circulando por aí. Eu prefiro um trabalho de formiguinha do que usar a mesma arma dos opressores. De qualquer forma, parabéns pelo texto…

    • novembro 13, 2012 7:25 pm

      Realmente não acho que militância virtual inviabiliza luta nas ruas! Podem super bem se complementar… mas me chama atenção que a crítica à ação direta esteja vindo de pessoas bastante centradas no ativismo digital.
      Sobre o “Femen/BR” não representar as feministas: super concordo, essa crítica vem de outras questões. O problema que eu vejo nessa ação delas não é nem o vandalismo, nem ‘queimarem o filme’, mas sim a pilantragem de se aproveitarem da mobilização de outras feministas pra se auto-promoverem, enfim. Aliás, se tem um risco de queimar o filme da questão contra a Marisa, é pela suspeita da associação entre FEMEN/BR tanto a Skinheads, quanto a partidos de direita como o PSDB – mais do que o vandalismo, é esse tipo de associação que me assusta.

      Sobre questão de não querer associação ao ódio, e do que você chama “usar a mesma arma dos opressores”, acho que esse é um texto muito legal pra refletir: http://pt.protopia.at/wiki/A_Não_Violência_é_patriarcal . Não sei se o ódio como resposta a uma opressão sofrida é igual ao ódio exercido pra sustentar uma opressão.. se dá pra equiparar as duas coisas, e se a luta feminista precisa ser essencialmente pacífica. De toda forma, é um bom texto pra se ler ^^
      obrigado por comentar!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: