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(Des)construindo a rivalidade masculina entre irmãos

julho 30, 2012

Não sei bem como foi, ou por que, um belo dia resolveu se inventar que “o sexo fala a verdade sobre quem somos nós”. A partir de então, nenhumx de nós sabe mais lidar com prazeres (sejam solitários ou compartilhados) sem se ver às voltas com uma série de inseguranças, fantasmas. Entre estes: vontade de ser amadX, medo de abandono, vontade de provar (para si? para o mundo?) que é alguém desejável, que é capaz de sentir e proporcionar prazer. Medo de fracassar, medo da solidão, medo de perder a capacidade de sentir prazer, etc, etc, etc..

Não acho que estes medos vão desaparecer um dia. No melhor das hipóteses, podemos aprender a lidar e conviver com eles, pra que se transformem de “imensos poltergeists” em “fantasminhas camaradas”. E isso não é nada fácil. Uma maneira de operar essa alquimia dos nossos medos é através da escrita. Queria então falar sobre alguns fantasminhas (na verdade fantasmões) bem pesados na construção da minha masculinidade, que envolvem diretamente a minha relação com meu irmão.

Se fôssemos transpor a frase da Simone de Beauvoir pro contexto da masculinidade, poderíamos dizer: “Ninguém nasce homem, torna-se um”. Levando essa frase um pouco mais longe, poderíamos dizer que não só “não nascemos homens”, mas nunca chegamos a sê-lo completamente. A masculinidade não é um dado biológico, algo estável, mas uma construção que depende de práticas sociais cotidianamente reiteradas, implicando relações de poder tensas, instáveis, sempre em disputa. Basicamente, isso implica que, mesmo nascendo com um pênis e sendo assignado pelos médicos enquanto “homem”, a sociedade vai continuar te testando, cobrando que você prove o tempo inteiro que é um “macho de verdade”.

Essa cobrança, passa por dois mecanismos principais: a homofobia internalizada e o exercício da dominação/controle sexual sobre as mulheres. Ou seja, para você ser um “macho de verdade”, você não pode parecer um ‘viadinho’, uma ‘bichona’. Ao mesmo tempo, você precisa provar que consegue “pegar quantas mulheres quiser” – que é capaz de usá-las, descartá-las – e que, se por acaso achar uma suficientemente “digna” para namorar, é capaz de vigiá-la e ter controle sobre ela para assegurar-se de que ela será fiel. Se você falha em qualquer uma dessas coisas, te fazem sentir-se um nada (claro que, então, o capitalismo patriarcal oferece uma série de estratégias e mecanismos para “compensar” esse fracasso – em geral com altas doses de misoginia, consumo de prostituição/pornografia, etc).

Ter um irmão mais velho, nesse contexto social, implica mais ou menos isso: estar crescendo com alguém que é, simultaneamente, seu “camarada” e seu “rival” de masculinidade. Alguém que ao mesmo é seu amigo, te ajuda, oferece solidareidade (afinal, é da família), e ao mesmo tempo é alguém em quem você se espelha, se compara, e disputa a construção de referências sobre o que significa (ilusoriamente) “ser um homem de verdade”. Especialmente quando você é uma criança, diante de alguém que construiu traços masculinos mais rápido que você, constrói uma relação complementar de admiração/auto-inferiorização, que desemboca para o ambivalência de amor e ódio.

Pois bem. Meu irmão sempre foi uma pessoa super-inteligente. Sempre teve muito talento para esportes (tênis, surfe, basquete), o que levou ele a rapidamente ter uma musculatura desenvolvida. Além disso, ele é/sempre foi lindo (é alguém por quem eu super me atrairia, não fosse meu parente). Várias meninas eram afim/apaixonadas por ele.

Na época do colégio, por outro lado, eu costumava ser uma pessoa desengonçada. Nunca gostei de futebol, esportes. Em geral, era alvo de chacota de outros machinhos no colégio. As meninas por quem eu me interessava, não queriam nada comigo (algumas inclusive eram apaixonadas pelo meu irmão). Eu lidava relativamente mal com isso, respondia com muita agressividade e ressentimento – o que acabava me afastando mais ainda das pessoas. Simplesmente não sabia como “ser uma pessoa legal”.

Lembro de um dia em que um (ou alguns? Deve ter soado como se fosse uma multidão) me disse que eu, sendo do jeito que eu era, “morreria virgem, sozinho”. Essa frase mexeu pra caramba comigo. Meu corpo desengonçado, confuso, meu jeito devagar de falar… pesava como algo vazio, sem significado, indiferente ao mundo. Foi a época em que senti, pela primeira vez, vontade de morrer. Ao mesmo tempo, tudo isso contrastava com a imagem do meu irmão – forte, lindo, inteligente – tão cheio de significado, sendo tudo aquilo que eu jamais conseguiria ser.

Enfim, o tempo passou. Mudei de escola, fiz amizades (com muita ajuda do mIRC), descobri pessoas que se interessavam por mim, namorei… fui ganhando e me sentindo uma pessoa real no mundo. Mas ao mesmo tempo, sempre vinha aquela sensação de que, no fundo, eu sempre seria aquele “nada” – e de que, no final das contas, nunca serei tão “interessante” quanto meu irmão. Durante alguns namoros que eu vivi, costumava me assombrar o medo secreto de que, por mais que a pessoa gostasse de mim, se pudesse escolher acabaria preferindo meu irmão (uma idéia extremamente misógina, que pressupunha as mulheres como corpos sem vontade ou desejo próprios, mas como carne que responde passivamente a tudo o que se afirma enquanto virilidade hegemônica).

Depois ainda, já na graduação, comecei a estudar sobre teorias de gênero, e descobri que a forma como meus amiguinhos me tratavam no colégio tinham vários nomes: heterossexismo, masculinidade compulsória, viriarcado, patriarcado. Pouco depois descobri o feminismo e percebi que, mesmo sendo tratado como um loser, eu ainda assim ocupava lugares de privilégio em relação a mulheres, em inclusive reiterava sem entender um sem-número de práticas machistas. Mais adiante, lendo Feministas Radicais e Teoria Queer, percebi que o próprio fato de eu desejar mulheres (principalmente utilizando produtos da pornografia) funcionava através de um binarismo que já era opressor por si só, e desde então venho me movimentando para desconstruir a economia erótica do meu corpo.  Através de alguns relacionamentos, e lendo sobre Amor Livre, entendi que amor e paixão não tem a ver com “atributos” que possuímos (como se fôssemos fichas num jogo de RPG), mas com as relações que criamos entre nós – e que são invariavelmente singulares, sem comparação possível.

Nisso tudo, toda aquela virilidade que me parecia tão “impressionante” caiu por terra, e fui parando de nortear minha vida por essas hierarquias. Comecei a sentir atração e  ficar também com homens (histórias que na minha vida ainda têm sido muito fugazes, tem  muita coisa ainda por se desconstruir pela frente. Bem como venho experimentando me vestir, e tentar me entender, como uma pessoa que não é necessariamente um “homem”,  mas como um corpo desejante que pode se expressar de ‘n’ formas que não cabem na caixinha “maculino X femenino”.

E, finalmente, comecei a entender meu irmão de outra forma. A achá-lo lindo e admirá-lo por coisas que são muito diferentes de mim, que eu não tenho necessidade de tentar me tornar. E que quando alguém se apaixona por ele, isso diz respeito aos mundos e relações que essa pessoa tem vontade de viver, e não a algo que alguém seja “mais” do que ninguém.

Acho que preciso de muito mais Feminismo para aceitar que amo meu irmão que ele nunca foi nenhuma espécie de rival.

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