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Superfícies

dezembro 1, 2011

Era noite de navegar no mundo dos pensamentos.

Gotículas no ar fechavam o caminho por onde, comunmente, seguiria um corpo: era noite de navegar no mundo dos pensamentos.

Tentativas de tomar outro rumo implicavam-lhe em perecer aprisionado. Assim era às vezes o destino de certas liberdades: por vezes imploram um longo mar a se nadar, céus para se voar. Mas, por vezes, um corpo livre precisa cavar pedaços na terra, sentindo o peso de ter que abrir contornos para si.

E foi assim, com o corpo exausto, formigando explosões estelares, que Luria cavou um cantinho em sua cama. O quarto reduzia de tamanho, perdia espaço produzindo calor.

Eram primeiros instantes de um sono que dificilmente terminaria.

De pouca importância aqui, mas útil aos juízes que procuram dar a Lúria certa sentença, cabe avisar que sim, seu sono serviria de pretexto a um sem-número de problemas, transtornos e preocupações. A caverna ali cavada nos lençóis seria invadida, inspecionada. Amarrariam suas estrelas com estranhos medicamentos, dariam um nome: “depressão”. Ou “Bipolar”. Ou “autista”.

Roubariam de Lúria, certo dia, os lençóis, deixando-lhe a raiva de quem não tem mais terra onde morar. Começaria então a cavar novamente: não em sua cama, mas em seu próprio corpo. Feito que fez nascer olhares de horror e desespero, então lhe roubando não só os lençóis, era vez de ir mais longe: tomar-lhe-iam o aconchego do quarto, jogar-lhe-iam numa enorme sala branca, cheia de câmeras, e outras plantas arrancadas de suas cavernas.

Mas foi essa luz branca, lavada a xaropes ácidos, que lhe indagou:

– Por que não encontra um outro lugar para canalizar suas energias?

Não faziam muito sentido a Luria estas palavras: “canalizar”, “energias”. Encanamento e eletricismo – não eram seu forte, sempre ouvira de seu pai pra ficar longe das máquinas . Mas ‘outro lugar’: sim, isso lhe soava. Disso entendia.

Depedindo-se do iluminado cheiro de xarope, Luria decidiu cavar novamente. Mas planejaria melhor seu próximo passeo: se fosse num lugar fora de si, tomariam-lhe as coisas. Se fosse muito fundo para dentro de si trancariam seu corpo. Dentro ou fora de si, não podia ser onde lhe encontrassem.

Mas certa noite, a janela que esquecera aberta trouxe-lhe o arrepio de um vento.

Seus arrepios, assim tocados, indignaram-se num prazer de artista, movendo seus braços para conter-se frente à brisa que lhe chamava a dançar. Mas seus braços gaguejaram, e sem querer repetiram. Recriaram, através dos movimentos, a mesmíssima sensação da brisa, impulsionando-a cada vez mais através de sua pele. Pouco a pouco, nas tentativas de conter esse tipo de invasão, uma tempestade começava a se desenhar por seu corpo.

Fechar a janela não mais bastava. Abraçar-se ao cobertor, tampouco. Onde será que vivia essa tempestade? Mas seus braços, mãos, dedos, já não paravam de lhe gaguejar.

Imperativo sendo construir um abrigo, Luria fez amor consigo pela primeira vez. E encontrou ali, nem muito longe no mundo, nem muito fundo no corpo, a terra por onde poderia fugir sem que olhos lhe encontrassem..

Decidira morar na superfície da pele: tatuaria-se ali.

E assim, tatuando-se nas peles de outras pessoas, Luria espalhou-se mundo afora, encontrando o doce lençol por onde poderia dormir em tranqüilidade. E viver, pela primeira vez, algo que finalmente conseguia chamar de realidade.

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