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Elogio do amor livre

maio 14, 2011


Elogio do amor livre¹

por: Amparo Poch y Gascón

Apresentação por Margareth Rago*

A ativista anarquista Amparo Poch y Gascón nasce
em Saragoça, na Espanha, em 1902 e, como muito pou-
cas mulheres em sua época,  torna-se médica pedia-
tra.  Funda a Organização “Mujeres Libres”, vinculada
à CNT - Confederação Nacional do Trabalho, ao lado de
Mercedes Comaposada e Lucía Sanchez Saornil, alguns
meses antes da eclosão da Guerra Civil Espanhola, em
1936. Escreve na revista do mesmo nome, onde assina
como Dra. Salud Alegre, abordando, com fina ironia, te-
mas políticos, sociais e relativos à saúde feminina e
infantil. Assim como suas companheiras, — e como a
brasileira Maria Lacerda de Moura (1887-1945), que tam-
bém publicava na imprensa anarquista espanhola —,
Amparo criticava a moral burguesa, a virgindade e o ca-
samento monogâmico indissolúvel; defendia a liberda-
de sexual para as mulheres, assim como a  maternida-
de consciente e voluntária. Dedica sua vida à luta re-
volucionária, mesmo durante o exílio forçado pela as-
censão do regime franquista. Falece em Toulouse, em
1968.

Prece do Amor Livre

Diz assim:

I. Tome a pétala fresca e suculenta; tome a polpa
doce da fruta madura; tome a senda esbranquiçada sob
o sol do poente, a colina de ouro, o carvalho, e a fonte
na sombra. Tome meus lábios e meus dentes onde brin-
cam as risadas como fios de água, e os fios de água
como risadas.

II. Eu não tenho Casa. Tenho, sim, um teto amável
para resguardar você da chuva e um leito para que você
descanse e me fale de amor. Mas não tenho Casa. Não
quero! Não quero a insaciável ventosa que enfraquece
o Pensamento, absorve a Vontade, mata o Sonho, que-
bra a doce linha da Paz e do Amor. Eu não tenho Casa.
Quero amar no extenso “além” que não fecha nenhum
muro nem limita nenhum egoísmo.

III. Meu coração é uma rosa de carne. Em cada fo-
lha tem uma ternura e uma ansiedade. Não o mutile!
Tenho asas para ascender pelas regiões da pesqui-
sa e do trabalho. Não as corte!

Tenho as mãos como palmas abertas para recolher
moedas incontáveis de carícias. Não as acorrente!

Convite ao Bom Amor

Mulher, ame sobre todas as coisas. Mas antes apren-
da o Bom Amor. No Bom Amor pesa tanto o alto quanto
o baixo, o Pensamento quanto a Carne, a Doçura quan-
to o Desejo; e é incompleto se lhe falta qualquer uma
destas coisas. Aprenda o Bom Amor.

Para ele é necessária plena liberdade, mas tam-
bém capacidade plena, pois sem esta a primeira é uma
ficção. Apenas se é livre quando se pode tomar uma
decisão dentre todas as que a ocasião oferece, quando
se pode escolher um caminho depois de ter reconhe-
cido todos, aquilatando seus valores e aceitando suas
conseqüências. Mas isto é obra da Inteligência, do Co-
ração e da Vontade, e é necessário aperfeiçoar os três
se queremos alcançar a categoria de seres livres. Se
não é assim, continuaremos afogando a nossa inqui-
etude entre simulacros amorosos.

Se você não se capacita, mulher, será um ser de
instintos, será uma carne simples, monótona e limi-
tada, fechada em você mesma e por você mesma abo-
lida. Se você não se capacita poderá vibrar com o rit-
mo irregular das estações e dos céus nublados segui-
dos de sol forte; você terá a pulsação perene dos
animais e das plantas; dará suas generosas florações
de fêmea; mas não conseguirá o Bom Amor.

Cultive a Inteligência para enroscá-la como uma
meiga roseira trepadeira no duro tronco dos impera-
tivos do Instinto; cultive a Sensibilidade e a Delicade-
za para correr como um calmo riacho, recolhendo to-
das as dores e todas as alegrias sem descanso, sem o
menor abatimento de sua generosidade; cultive a Von-
tade para perfilar sua vida, para modelar sua canção,
para esculpir suas obras por você mesma.

E depois desdobre o Sorriso como uma suave ser-
pentina multicolorida; reparta o Abraço num denso ra-
cimo de frutas douradas; e solte o Beijo, como um cau-
dal de música feliz.

Lembre que o delicado Eros, para chegar ao Bom Amor,
teve de desatar suas vendagens.

 Mulher, ame sobre todas as coisas.

Casamento e amor

Quando o homem perdeu a fresca graça de seus amo-
res sem travas, ingênuos e primitivos; quando se consu-
miu a inocente naturalidade de suas paixões e se afogou
em regras morais a sincera, a cordial simplicidade do
desfrute em plena marcha sobre a Natureza; quando o
hálito perfumado e voluptuoso das “Canções da Bílis” foi
totalmente esquecido... desceu o amor à categoria de
pecado. Mas como a vida, sem ele, estancava-se com sua
fadiga inexplicável, os homens, com um insano desejo
de vingança, lutaram contra Eros e lhe cuspiram no ros-
to.

O condenaram ferozmente, sem pensar que se fazi-
am desgraçados. Por uma paixão, toda uma vida de tortu-
ra. Pela atração de um dia, incontáveis anos de repug-
nância. Eros foi despojado de suas asas.

Por um doce olhar espontâneo é obrigado a estar olhan-
do sempre o mesmo objeto; por um generoso e cândido
abraço é forçado a abraçar sempre a mesma pessoa. A
Alma humana, imóvel; e a Vontade, solidificada em gelo!
Do gesto amoroso se fez um minucioso código, morto e
frio; do mais grato e ardente presente, uma compra-venda
em parcelas, inclusive com sua regulamentação; ou à
vista, com seu contrato em regra, e a um preço muito
mais elevado, porque além do dinheiro, que conta para
muito pouco, entram em compromisso o Coração e a Li-
berdade, que são tudo para o Amor.

Quando, roubada a nobreza de toda manifestação amo-
rosa, já feita dever, os homens se envergonharam, tal-
vez, de tudo o que tinham manchado, tão só tentaram
justificar sua profanação com outra maior, tomada como
desculpa: o filho. E disto, tão claro e tão simples, tão divi-
namente brutal e tão profundamente humano, fizeram
um novo elo e soldaram a corrente para sempre, entre os
covardes. Fizeram tampo para sua hipócrita timidez, do
filho, que é apenas um ponto no qual convergem dois
cuidados e dois deveres, mas nunca uma justificativa moral
do que tão só o Bom Amor, sobre nós, justifica.

E cegos os homens e as mulheres por si mesmos, con-
tinuam caindo na armadilha; e, quando lhes falta nobreza
para encontrar saída, arrancam-se o Coração e o colocam
como alicerce do Casamento.

Um fruto esplêndido: o adultério

Precisamente porque a Vida é Vida, não é quietude.
Somos todos os seres de uma dupla corrente, que não ces-
sa um momento, de entradas e saídas. Sob esta perma-
nência aparente das formas, a matéria e a energia — duas
modalidades da mesma coisa — estão em perpétuo fluir,
em um ir e vir sem descanso. E assim a Alma. Por isso, ao
se sentir ferida no mais profundo, ao sentir degradado o
mais nobre de sua natureza, rangeu de dor e espanto. Ain-
da tentou conter-se na fria unidade de sua condena; mas
a Vida, em seu fluir eterno, impôs-se com razão. Assim,
da degradante aceitação do casamento — contrato e regu-
lamentação do inalienável — surgiu esse fruto vermelho
e redondo, farto e eloqüente, estupendo e prometedor: o
adultério. É o protesto natural e humano contra a trava
pesada ao alado e imponderável; e reivindica, como uma
gargalhada fresca, entre zombeteira e honrada, o pleno
direito à liberdade de amar, o transbordamento sobre as
correntezas artificiais, da evolução da personalidade. Aqui
está, como uma conseqüência do esquecimento do verda-
deiro ser de Eros e do Homem, este duplo crime da mísera
vida diária: a convivência fria ou a carícia instintiva e
isolada sobre a Carne muda; e o abandono culpado e te-
meroso do Sentimento, valor universal. Em suma, amor
que não é Amor.

A mulher em defesa

Quando perdeu sua louçania graciosa de lírio ereto,
a mulher, estritamente monogâmica por imposição, jun-
to ao homem, essencialmente poligâmico por natureza,
e sinceridade cuidadosamente mantidas, percebeu um
fato: a Propriedade. A Casa se fechava como uma boca
ansiosa e havia nela muito que fazer. A realidade eco-
nômica enterrou a mulher, completamente ignorante
já do ingênuo prazer da vida primitiva, de que a Casa a
excluía de todas as tarefas de produção, de todos os tra-
balhos públicos que dão direito à subsistência. Esta lhe
vinha por meio do homem, a quem rendia seus serviços
privados, inclusive os sexuais; e se defendeu em sua
nova posição, preocupando-se por consolidar os laços que
a uniam ao homem.

Este homem é meu e eu sou sua, disse. A Propriedade
encolheu seu pontudo nariz de agiota, piscou seus
repugnantes olhos e todos os regimes de opressão au-
mentaram as cifras de suas vítimas.

Foi a venda da Consciência, da Liberdade, da Espon-
taneidade, pela Irresponsabilidade e a negação a produ-
zir.

Em direção ao Bom Amor

Mulher, se você quer recobrar a dignidade perdida;
se quer encontrar um sol novo neste sol tão antigo; se
quer sentir o renascimento de sua alma e a graça sin-
gular de se encontrar a si mesma, suba a escada amo-
rosa em benefício de sua superação. Multiplique sua
capacidade de amor, mulher, mas...

Pense que o sentir nem lhe dá direito sobre nin-
guém nem a faz objeto de propriedade.

Pense que por muito grandes que sejam a paixão
do prazer e o prazer da paixão, não devem arrastar
você em sua torrente; e que se em uma hora gloriosa
você pode extraviar seus sentidos, jamais deve per-
der sua vontade.

Pense que o homem amado tem sua alma, suas
idéias, seus interesses, sua personalidade, enfim, que
só em alguns pontos coincidirá com a sua; mas que a
mais perfeita coincidência não supõe a absorção de
um pelo outro.

Pense que é imoral permanecer em vida comum e
íntima quando não existe uma florescente Ilusão, uma
palpitante Ansiedade, um doce e sereno Bom Amor,
ainda quando tenham sido feitas mil promessas e mil
propósitos tenham criado mil ligações.

Pense que o filho também não é, nem deve ser, ra-
zão de comunidade amorosa quando já não há amor;
que é possível amá-lo, cuidá-lo, instrui-lo, protegê-lo,
educá-lo, sem se servir dele como pretexto para a mais
repugnante das mentiras.

Pense que por ele não se deve mentir, que precisa-
mente por ele se deve ser nobre, sincero, corajoso,
com uma alma e uma ação paralelas, com uma fé e
uma atitude acordes; que é necessário sentir e fazer
a verdade para poder ensiná-la a ele.

Pense que para chegar ao Bom Amor é necessário
aprender a trabalhar, a sentir docemente e com reti-
dão, a ter aspirações, a movimentar a inteligência,
profundamente inquieta, em direção ao Bem...

Amor livre!

E então, mulher, apaixonadamente apaixonada, não
peça por seu amor. Grane-o, como a videira; floresça-o,
como a roseira; levante-o, como o eucalipto; sem pergun-
tar nada, sem pedir nada para o amanhã.

Nem a videira, nem a roseira, nem o eucalipto, an-
tes de granar, antes de florescer, antes de se levan-
tar, pedem um jardineiro que os atenda, nem exigem
promessa de que o sol não haverá de secá-los, nem o
vento haverá de quebrar seus talos, nem a água im-
petuosa haverá de afogar suas raízes. Eles são gene-
rosos, e quando um deles perece, muitos mais nas-
cem para a vida. Ame, ame, mas que os braços não
lhe sirvam como amarras, mas como coroa. Deixe que
tudo vá e volte; e você, sorria sempre, tenaz procura-
dora de todas as alegrias terrenas. Sorria sempre, ágil
e sentimental, doce e reflexiva, através do esqueci-
mento, do desprezo, da critica. Alente sua criação: lan-
ce à Vida uma nova medida para estimação de seu
sexo. A Vida está cansada já da Mulher-esposa, pesa-
da, demasiado eterna, que já perdeu as asas e o gosto
pelo deliciosamente pequeno e pelo nobremente gran-
de; está cansada da Mulher-prostituta, à que resta ape-
nas a raiz sucintamente animal; está cansada da Mu-
lher-virtude, séria, branca, insípida, muda...

Invente o novo tipo; ponha o sal na Vida; a cor e a
chama nos beijos desiguais. Ame, fale, trabalhe. Com-
preenda, ajude, console.

Aprenda a desaparecer e a desobrigar de sua pre-
sença; e a conhecer o valor do “eu” livre. Sem nada;
nem por dinheiro, nem por paz, nem por sossego...
Amor Livre!

Remessa

Eu não tenho a Casa, que o arrasta como uma in-
transigente e implacável garra; nem o Direito, que o
limita e o nega. Mas tenho, Amado, um carro de flores e
horizonte, onde o sol se põe como roda quando você me
olha. Quando você me beija...

Mujeres Libres, número 5, julho 1936

Tradução do espanhol por Natália Montebello.

Notas

¹ - Extraído de Antonina Rodrigo. Amparo Poch y Gascón. Textos de
una médica libertaria. Zaragoza, Alcaraván, 2002, pp. 95-101

² - Retirado da Revista Verve número 09.

* Margareth Rago é Professora do Depto. de História - IFCH/UNICAMP
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